quinta-feira, 12 de julho de 2012

Responsabilidades Básicas do Professorado Cristão


 Por Francikley Vito*
Ao se levantar para dar a sua aula, o professor cristão se coloca – mesmo que não saiba - como um instrumento espiritual, político e social para que, por meio dele, o aluno tenha suas múltiplas necessidades atendidas: necessidades espirituais, necessidades morais e necessidades intelectuais. Como o próprio nome deixa transparecer, o professor é aquele que transmite, que professa (lat. professor,óris) suas crenças, valores e experiências de vida à sua classe; ele é também um cultivador, aquele que trabalha para que o caráter cristão seja manifesto na vida dos seus educandos. Tomando ainda a etimologia latina da palavra, podemos dizer que o professor é um profeta (profeta e professor vem da mesma raiz linguística em latim) no sentido em que o fim último do seu labor é a aplicação das verdades bíblicas para guiar os alunos a um conhecimento experimental de Jesus, o Cristo e de fazer lembrança da palavra de Deus àqueles que querem moldar a suas vidas por meio daquela Palavra.
Na cultura judaica, o ensinador era tido em tal estima que os seus alunos os chamavam de Rabi, meu mestre (Jo 1.49); aqueles que se destacavam como ensinador de ensinadores, por ter um vasto conhecimento da Torah (Lei), eram chamados de Rabam, nosso mestre. Os mestres judeus entendiam que os professores, assim como todo o homem, tinham que, em sua vida, procurar viver de acordo com os preceitos da lei; e essa era um responsabilidade tríplice: a) Sua responsabilidade em relação a Deus, o Senhor da sua vida; b) Sua responsabilidade em relação ao seu semelhante, imagem de Deus; e, por fim, c) Sua responsabilidade em relação a si mesmo (Szpiczkowski, 2002). Neste texto voltaremos a nossa atenção para o último desses itens, a saber: o professor e sua responsabilidade em relação a si mesmo. Pois o professor, para cumprir a tarefa que lhe foi  outorgada por Deus (Ef 4.11), precisa examinar a si mesmo e, assim, moldar a sua vida de acordo com os princípios divinos (I Co 4.6) sempre fixando os seus olhos no Mestre, Jesus. Vejamos então as responsabilidades do professor em relação a si mesmo.
O Professor deve amar o que faz
O ensinador cristão deve ter em mente que, para praticar a arte de conduzir, é preciso se doar àqueles a quem conduzimos. Essa doação é o amor. É necessário ao educador cristão amar o que faz; sem isso, o labor educativo é não apenas enfadonho, mas mordaz. Quando falamos da necessidade de amor no ato de ensinar, não queremos dizer com isso que o professor deve ser guiado por um sentimento de “bem estar” muitas vezes enganoso e irreal. O amor é entendido aqui como a ação de procurar o bem do outro pela doação de nós mesmos (Jo 3.16). Não há melhor forma de incentivar aos outros a viver os preceitos do cristianismo do que o amor. Como disse o teólogo e escritor cristão F.F. Bruce (2003, p.16),
[...] onde o amor é a força propulsora, não há nenhuma sensação de pressão, conflito ou imposição para fazer o que é certo; a pessoa que é impelida pelo amor de Jesus, e capacitado pelo Espírito, faz a vontade de Deus, de coração.
Se quiser o professor alcançar resultados satisfatórios em sua prática educativa, deve lembrar-se a todo o momento que existe “um caminho mais excelente”, o amor (I Co 12.31). De outro modo, poderíamos dizer que o ensino cristão não deve ser apenas um exercício de retórica, mas, antes e acima de tudo, um exercício de amor.
Além de ser a marca pela qual os discípulos do Cristo, o Supremo Mestre, deveriam ser conhecidos (Jo 13.35), o amor é a força motriz pela qual o professor é levado a suportar as dificuldades enfrentadas no exercício do professorado. Uma vez que nenhuma classe será homogênea em sua constituição e livre de intempéries em sua dinâmica (no ensinar), cabe ao professor lutar com os “armamentos” da sua milícia, que não são carnais, mas poderosas em Deus para derribar quaisquer empecilhos que venha a encontrar (II Co 10.4). Pois, nas inspiradoras palavras do apóstolo Paulo, o amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (I Co 13.7). Deve, então, o professor amar os seus alunos e amar o que se propôs a fazer, ensinar.
O Professor deve orar pelo que faz
A oração é fundamental ao professor cristão. Apesar de concordar com João Calvino quando diz que o exercício da oração e sua utilidade não podem ser expressos de modo suficiente pelas palavras, temos que nos lembrar que o professor, como todo cristão, deve orar “em todo tempo, com toda oração e súplica no Espírito” (Ef 6.18). Sem isso, não será possível o eficaz exercício da educação transformadora a qual o ensinador cristão se propõe. Ensinar é não trabalhar sozinho. Tomás de Aquino dizia que orar é a elevação da mente a Deus para aquilo que é bom para a Salvação; assim (a) a prática educativa deve ser alvo da oração do professor cristão bem como (b) o aluno deve ser alvejado pela oração do seu professor para que haja transformação, consolo, iluminação e libertação (Leite Filho, 2003, p. 104). Como disse o escritor cristão Myer Pearlman (1995, p. 7),
Se você atendeu ao chamado de ensinar em uma classe [...] na verdade você aceitou um grande trabalho, porque esse chamado traz consigo o privilégio e a responsabilidade de cooperar com Deus na formação do caráter cristão, e no compartilhamento do conhecimento espiritual. [...] Reconhecendo a importância e a dignidade de seu chamado, você deve propor-se, com a ajuda de Deus, a conseguir melhor e maior rendimento possível em seu trabalho, fazendo dele uma verdadeira vocação (os grifos são nossos).
Ao ser chamado para a função de ensinar o professor cristão é chamado a cooperar com Deus para o amadurecimento pessoal e espiritual daqueles a quem ensina; mas essa tarefa é reconhecidamente um ministério, um trabalho, que, para ser levado a efeito, precisa contar com a preciosa, constante e indispensável ajuda de Deus (Is 41.10). Essa ajuda do alto é conseguida por meio da oração. Na oração Deus ensina a ensinar (Jd 20). Como foi dito, o Espírito “vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar” (Jo 14.26).
O Professor não deve ser reprovado no que faz
 O exemplo é outro imperativo no professorado cristão; o ensinador cristão deve viver o que prega, ou pelo menos deve se esforçar para aplicar em sua vida os princípios que ensina a outros, como diz Leite Filho (2003). Essa responsabilidade é demonstrada de forma brilhante pelo pensador e teólogo cristão Agostinho de Hipona (354-430) quando, em um pequeno e profundo aforismo, diz que “se a vida de um homem for relâmpago, as suas palavras serão trovão”; vê-se aqui a importância de o professor se colocar como um espelho em quem o aluno possa encontrar exemplo cristão para sua caminhada de aprendizado nas virtudes cristãs.
A idéia do ensinador como exemplo para os seus aprendizes é comum nos escritos judaicos e cristãos. Os judeus entendem, desde muito tempo, que a coerência entre conhecimento e prática é uma condição mínima (!) para que o homem seja respeitado; pois, para eles, todo homem é criado à imagem de Deus e, como tal, é dotado de inteligência e, portanto, deve cuidar para que haja uma dinâmica harmoniosa entre aquilo que apregoa e aquilo que vive na prática. No Pirkei Avot (Ética dos Pais), coletânea de ditos e sentenças dos “pais”, os Sábios de Israel, editado de 300 a. C até 200 d. C., é dito que “todo aquele cujas boas obras excedem a sua sabedoria, subsiste [permanece] sua sabedoria; mas todo aquele cuja sabedoria excede suas boas obras, a sua sabedoria não subsiste” (in: Szpiczkowski, 2002, p.86); e em outro lugar se diz:
Com que se parece aquele cuja sabedoria excede suas boas ações? Com uma árvore de muitos ramos e raiz poucas, e assim, quando sopra o vento, ele a arranca e derruba [...] Mas, com que se parece aquele cujas boas ações excedem sua sabedoria? Com uma arvore de poucos ramos e raízes muitas, de modo que, embora todos os ventos do mundo soprem e a fustiguem, não moverá do lugar [...]. (Op. Cit. p. 97).
O ensinador deve ter em mente que todas as ocasiões e situações da sua vida diária podem se transformar em oportunidades para o ato educativo; e, como exemplo, pode fortalecer a confiança que os seus alunos têm em seu professor, aumentando, assim, seu potencial como ensinador cristão (I Co 9.27). Aquilo que Paulo disse ao seu discípulo e então pastor Timóteo (Tm 4.12), serve para todo aquele que quer abraçar a árdua tarefa do ensino, a saber: “sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza.” O bom ensinador deve ser, em primeiro lugar, exemplo àqueles a quem ensina.
O ensinador cristão é chamado por Deus para cooperar com Ele em um ministério, o ministério do ensino; para isso a sua vocação é empregada a serviço do Reino de Deus para edificar, fortalecer, salvar e transformar vidas. No entanto, para que o seu trabalho seja bem sucedido, o professor cristão deve, em sua prática de ensino, doar-se em favor dos seus alunos, suplicar em oração a ajuda de Deus e não ser tido como alguém que não pode ser seguido. Sem essas características, ou responsabilidades pessoais, o professor cristão pode desempenhar uma função educativa, mas nunca a vocação de educador; pois para transformar um trabalho em vocação é necessário vontade e labor pessoal.
Referência Bibliográfica
BÍBLIA SAGRADA. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica do Brasil/JUERP, 2006.
BÍBLIA ONLINE.<http://www.bibliaonline.com.br> Acesso em abr. 2011.
BRUCE, F.F. Paulo, o apóstolo da graça: sua vida cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2ª ed. 2003.
LEITE FILHO, Tácito da Gama. Educação Cristã: A Bíblia, a Educação, o Educador. Goiânia-GO: CETEO, 2003.
PEARLMAN, Myer. Ensinando com Êxito na Escola Dominical. São Paulo: Editora Vida, 1995.
SZPICZKOWSKI, Ana. Educação e Talmud: Uma Releitura da Ética dos Pais. São Paulo: Humanitas/FAPESP, 2002.
 *Francikley Vito é casado e tem dois filhos, professor de Teologia e Língua Portuguesa é pós-graduando em Cultura e Comunicação pela PUC-SP. E-mail: francikley.vito@gmail.com

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