terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A PREPARAÇÃO DOCENTE E O USO DA IMAGINAÇÃO


Muitas pessoas vieram a conhecer o escritor C. S Lewis, a partir de uma aventura de sua autoria, “As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, veiculada mundialmente pelo cinema. Já nos círculos cristãos, Lewis é apreciado há bastante tempo por outro lado seu, o de vigoroso defensor da fé cristã, pelo qual ganhou o título de “apóstolo dos céticos”, porque se diz que até mesmo aqueles que discordam dele o respeitam.

Como filósofo cristão, Lewis teria sucesso suficiente para dedicar-se completamente à Filosofia, à Literatura Medieval e à Apologética. Entretanto, observa-se em sua biografia que ao lado de verdadeiros tesouros de argumentação a favor do Cristianismo, encontram-se fábulas infantis que alçam vôos até às figuras mitológicas, aos animais que falam, e ao bem – representado pelo leão Aslam – que vence o mal.
Há muitos exemplos, como o dele, de pessoas que ao mesmo tempo dedicam-se arduamente à tarefa de entender, refletir, escrever e ensinar o que é complexo, mas que igualmente se dedicam à prosa, à poesia, à música e a outras artes, e para isso usam sua imaginação.
O dicionário Aurélio define imaginação, como sendo: “1. Faculdade que tem o espírito de representar imagens; fantasia. 2. Faculdade de evocar imagens de objetos que já foram percebidos; imaginação reprodutora. 3. Faculdade de formar imagens de objetos que não foram percebidos, ou de realizar novas combinações de imagens. 4. Faculdade de criar mediante a combinação de idéias. 5. A coisa imaginada. 6. Criação, invenção...”.
A literatura bíblica mostra os dois lados da imaginação. Negativamente, os povos se guiam por ela e se consideram autônomos em relação a Deus, criando para si deuses de acordo com sua imaginação (Is 44.9-20). Positivamente, está presente tanto na obra criada quanto no relacionamento de Deus para com seus filhos, e à disposição de quantos queiram utilizá-la para bem, como parte da constituição do ser humano.
Do ponto de vista do ensino, é comum encontrar personagens bíblicos em situações que podem ter explorado sua imaginação. Imagine rápido: Como reagiu a imaginação de Adão ao dar nomes aos animais? Como terá sido a ‘visão da arca’ para Noé, à medida que Deus a descrevia?
Como terá sido a ‘visão do tabernáculo’ para Moisés, antes que Deus lhe mostrasse o modelo?
Os livros poéticos também laboram na imaginação. Quem lê o Salmo 133 apreende a excelência da união entre os irmãos. Para maior brilho de sua mensagem, o salmista evoca a história de Arão, o primeiro sumo sacerdote de Israel, sobre quem o óleo da unção foi derramado, espalhando-se por sobre a cabeça, chegando à barba e depois às vestes sacerdotais; ao mesmo tempo o salmista conduz os leitores a um passeio pelo monte Hermom, a fim de que assistam, mentalmente, o degelo do cume gelado e imaginem a irrigação abençoadora das terras adjacentes e do fluir do rio Jordão até o sul de Israel. Percebe-se que as lições deste salmo são facilitadas pelo uso da imaginação.
Há muitas proposições imaginativas mais em vários livros bíblicos, extraídas do cotidiano e expressas nas Escrituras na forma de figuras de linguagem. O Senhor Jesus, o mestre por excelência, utilizou-as, referindo-se ao cotidiano para ensinar verdades espirituais, e explorou constantemente a imaginação de seus ouvintes. Paulo se utilizou das figuras do soldado, do atleta e do lavrador para suscitar em Timóteo um espírito concentrado na luta missionária, dentro das normas e a dignidade de recolher os primeiros frutos.
A imaginação, tão própria da infância dos seres humanos e que se esvai até quase tornar-se obsoleta no estado adulto, felizmente insiste em permanecer em alguns. Os mestres da igreja precisam estar entre esses privilegiados, porque, obviamente, um dos recursos mais eficazes do ensino se apresenta no uso da imaginação, como recurso de comunicação do conhecimento.
Entretanto, deve-se recordar a todos quantos ensinam que a imaginação é subalterna do embasamento bíblico-doutrinário. É instrumento de comunicação e não fonte de autoridade. É facilitadora do conhecimento e do relacionamento docente-discente, mas não é princípio doutrinário. Não se pode basear o ensino bíblico na imaginação do professor ou do aluno, porque desse ‘atalho’ freqüentemente surgem as heresias. Antes de tudo, aqueles que se dedicam ao ensino devem labutar no próprio conhecimento bíblico, para depois utilizarem sua imaginação no processo de implementar suas aulas.
Aqueles que ensinam crianças sabem como é importante ‘entrar no mundo’ da criança, para ensiná-la nas verdades bíblicas, sem ridicularizá-la acerca de sua cosmovisão. Aqueles que tratam com adolescentes precisam compreender as múltiplas transições vividas por eles e ajudá-los, de maneira criativa, a confiarem sua vida a Deus. Jovens e adultos devem ser biblicamente instruídos, mas também estimulados a vôos imaginativos, como parte do trabalho holístico de formação dos filhos de Deus.
Como (re) descobrir a imaginação sadia nos professores? Além de leituras especializadas em Bíblia, teologia e nos assuntos veiculados pela lição, vale a pena ler textos que descrevam a vida diária dos tempos bíblicos e suas peculiaridades; ler bons livros; permitir-se ser infantil de vez em quando; contar histórias; brincar mais; conviver com toda sorte de situações legítimas. Todas essas atividades certamente encaminharão o raciocínio dos professores ao que pode trazer maior criatividade e espontaneidade à aula.
C. S. Lewis, do alto de sua capacidade apologética, apresentou-se ao mundo também como contador de histórias. Não perdeu no curso da vida aquilo que cultivou na infância – a imaginação.
Os mestres bíblicos do nosso tempo devem se apropriar e utilizar da imaginação em sua atividade docente, como parte de sua própria formação, voltando, se necessário, aos tempos de infância para resgatar o que se perdeu.
Publicado no site da Associação Internacional de Escolas Cristãs

Rua Cássio de Campos Nogueira, 393, São Paulo, SP 04829-310
Tel.: (11) 5925-2602
www.acsi.com.br
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Wilson do Amaral Filho

Tesoureiro do CONAPE
(Comissão Nacional Presbiteriana de Educação) e
Professor de Teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

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