quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Sobre profetas e professores


Escrito por  Ev. Francikley Vito*

Sobre profetas e professores
O ensino e a aprendizagem não são ações apenas racionais e mecânicas, são atos que, para serem levados a efeito, exigem
daqueles que os praticam uma entrega total e constante; essa verdade se mostra ainda mais contundente quando consideramos a ação educativa do âmbito cristão, com suas peculiaridades e desafios. Não trataremos aqui da segunda ação (a aprendizagem), mas tão somente da primeira (o ensino). Já dissemos, em texto anterior, que, quando o professor se levanta para dar sua aula, ele se coloca como um instrumento de transformação que atua nas múltiplas áreas de formação do aluno (Vito, 2011); nesta mesma oportunidade, traçamos as primeiras reflexões quanto ao assunto que será alvo do nosso pensar neste texto, a saber, as similaridades entre a pessoa do profeta veterotestamentário (do Antigo Testamento) e a ação do professor cristão na contemporaneidade. Ali dissemos que o professor se assemelha ao profeta, em um primeiro momento, etimologicamente, visto que os dois substantivos derivam da mesma raiz linguística latina (professor,óri). Assim, o professor, da mesma forma que o profeta, é alguém que transmite, que professa, suas crenças, valores e experiências de vida à sua classe. Porém a similaridade entre um e outro vão muito além das já expressas naquele trabalho. E é isso que intentamos mostrar no decorrer deste artigo; à luz da vida de um dos profetas mais conhecidos do Antigo Testamento, Jeremias.
Consciência de Seu Lugar na História
O professorado não é uma ação que se dá em desconexão com a realidade; ao contrário, todo ensino, como ato comunicativo, é praticado em um contexto cultural real e conhecido, por isso se diz que o professor cristão precisa ser consciente da realidade cultural que o cerca, para, por meio da ação educativa, dar resposta a essa realidade da qual faz parte e é convidado a ler, entender e, não poucas vezes, a rechaçar como inadequada, a exemplo dos profetas bíblicos (Jr 1.18). O professor cristão precisa compreender que foi chamado para falar a um povo em uma época específica, com todas as suas mazelas, intempéries e desafios, e que “a realidade social não se encaixa em esquemas preestabelecidos”(Furlanetto, 2003, p.10). Esse desafio de falar a sua época faz com que a responsabilidade do professor avolume-se ainda mais. Para interagir como educador na construção do conhecimento em uma realidade viva e dinâmica, com suas singularidades, conflitos e valores, é imperativo que o professor tenha consciência de si, ou seja, o docente precisa se reconhecer como ator-agente do ato educativo. De outro modo, diríamos que, quando toma consciência do seu papel como sujeito na História, o professor constrói respostas para os desafios da prática docente. Ou como coloca muito bem Ecleide Cunico Furlanett, em seu livro Como Nasce um Professor?:
O professor toma decisões, processa informações, atribui sentido, fundamentado no que conhece e sabe; sua subjetividade é composta por uma mescla de teorias, vivências e valores. (2003, p.12)
Essa mesma consciência e construção de significado podem ser percebidas na dinâmica da revelação que Deus, na Bíblia Hebraica, dava aos seus profetas. Para que observemos como essa consciência de realidade, da qual o profeta necessitava para fazer uma leitura correta do seu tempo e do seu ofício, bem como dos propósitos de Deus para aquela realidade, vejamos o exemplo do profeta Jeremias, que profetizou para o seu povo e para as outras nações por mais de quarenta anos:
E veio a mim a palavra do Senhor segunda vez, dizendo: Que é que vês? E eu disse: Vejo uma panela a ferver, cuja face está para o lado do norte. E disse-me o Senhor: Do norte se descobrirá o mal sobre todos os habitantes da terra. Porque eis que eu convoco todas as famílias dos reinos do norte, diz o Senhor; e virão, e cada um porá o seu trono à entrada das portas de Jerusalém, e contra todos os seus muros em redor, e contra todas as cidades de Judá. E eu pronunciarei contra eles os meus juízos, por causa de toda a sua malícia; pois me deixaram, e queimaram incenso a deuses estranhos, e se encurvaram diante das obras das suas mãos. Tu, pois, cinge os teus lombos, e levanta-te, e dize-lhes tudo quanto eu te mandar; não te espantes diante deles, para que eu não te envergonhe diante deles. (Jeremias 1.13-17)
Como indica Mcnair, depois de tomar consciência daquilo que era e de quais eram os planos do Senhor para o seu tempo, seu povo e os povos vizinhos, encontramos o profeta “dando sua mensagem nos lugares públicos, nos átrios do templo, no palácio real, nas portas da cidade, nos dias de festa ou jejum, quando o povo da roça tinha vindo à cidade para o culto”(1985, p. 250). A consciência de quem somos nos coloca onde devemos estar e nos encoraja a fazer aquilo que é necessário para melhor desenvolver nossas funções como mediadores do conhecimento em uma época e lugar específico.
Consciência do Chamado
A maioria dos teóricos da educação tem concordado que os melhores educadores são aqueles que, em sua prática educativa e em sua realidade vivencial, têm consciência de que são vocacionados para desempenhar as funções inerentes ao professorado; essa consciência também era notada na dinâmica do profetismo no Antigo Testamento. Vejamos o marcante e conhecido caso do “profeta chorão”, como também é chamado o profeta Jeremias por seu segundo escrito que ganhou o nome de Lamentações. Na cena inicial do livro profético que leva o seu nome, o narrador descreve assim o seu chamado:
Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta. Então disse eu: Ah, Senhor Deus! Eis que não sei falar; porque ainda sou um menino.
Mas o Senhor me disse: Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar, falarás. Não temas diante deles; porque estou contigo para te livrar, diz o Senhor. (Jeremias 1.4-8)
Apesar de a palavra “vocação” estar sendo evitada por alguns teóricos para descrever “a tendência natural do espírito para uma carreira” (DELP, 2008) por trazer consigo uma representação religiosa, pois era a palavra usada para descrever o sentimento de direcionamento que alguns jovens sentiam para abraçarem o sacerdócio católico romano, entendemos que esse é um termo adequado; utilizado, inclusive, sem problemas, por vários educadores antigos e modernos (In: Lengert, 2011). Ao falar da vocação como elemento constitutivo à prática professoral, não queremos com isso invalidar, ou esvaziar de responsabilidade, os esforços para o aperfeiçoamento constante do professor; acreditamos que o professor precisa, a despeito da sua vocação, dedicar-se ao ensino, principalmente aquele que exerce a laboriosa tarefa de ensinar a outros as verdades de Deus (Rm 12.7). Como bem demonstrado pelo educador Imídio G. Nérici, “é importante saber, quanto ao exercício do magistério, se o candidato tem condições para o mesmo”(1999, p.51). Ainda seguindo em seu raciocínio, Nércio aponta algumas condições intrínsecas para exercitar o magistério, princípios esses que bem podem ser usados em referência ao magistério cristão, dentre os quais destacamos (Op. cit.):
a) Senso de dever;
b) Sinceridade e coerência de comportamento;
c) Admiração pelo ser humano e
d) Forte senso de responsabilidade.
Notemos que o exercício das características acima citadas, em grande medida, depende de o quanto o professor seja consciente de sua vocação, do seu chamado, a exemplo do profetismo exercido pelos homens e mulheres do Antigo Testamento (Ver Am 7.14-15). A certeza da nossa vocação nos ajudará no exercício da nossa função como educadores.
Consciência de Seu Ensino
No vocabulário comum do profetismo veterotestamentário, uma frase parece ressoar com maior frequência, a saber: “Assim diz o senhor” (Jr 2.2). Como sabido, um dos vocábulos aplicados à pessoa do profeta era “porta-voz”, ou seja, aquele que carregava consigo e em si a voz de Deus. Assim, a responsabilidade maior do profeta era que os outros a quem ele era enviado, no contexto em que estavam, estivessem conscientes de que as palavras do profeta eram, na verdade, os “oráculos do Senhor”. Essa é a razão pela qual o profeta Jeremias tinha a preocupação de registrar em seus escritos que suas declarações eram resultado da revelação vinda pela “palavra do Senhor” ao seu povo (Jr 1. 2,4,11). Como explica o dr. George A. Smith:
Devemos banir do nosso pensamento a ideia popular que o principal serviço do profeta era predizer [...] Sendo participante dos conselhos de Deus, o profeta vem a ser portador ou pregador [ou ensinador] da palavra divina. A predição do futuro é somente uma parte, e muitas vezes parte subordinada e acidental, de um ofício cuja função era declarar o caráter e a vontade de Deus. (In:MCNAIR, 1985, p.231)
Esse reconhecimento que o profeta tinha de que seus pronunciamentos não eram em última análise seus, pode servir de símbolo (símbolo “é sinal de reconhecimento” In: FURLANETTO, 2003, p.33) par o professor no sentido de que ele precisa reconhecer que o seu ensino não serve para si, mas para crescimento, aperfeiçoamento e direcionamento de outros. Em outras palavras: O professor, como o profeta, é um instrumento para que outro apareça; no profetismo essa instrumentalidade era exercida por Deus e para o povo; no professorado, o labor do sujeito-mediador é para amadurecimento dos que o ouvem e são alcançados por sua declarações. As palavras de Nérici (1992, p.55), quando falar sobre a função orientadorado educador, revelam que:
A função orientadora do professor vem aumentando de importância e tornando-se cada vez mais indispensável [...] consiste em compreender o educando e sua problemática de vida, a fim de auxiliá-lo a encontrar saída para as suas dificuldades, a se realizar o mais plenamente possível. 
O educador cristão é um guia, assim como era o profeta, para mostrar àqueles que estão em caminhos tortos novas possibilidades (Rm 2.19); esse enfrentamento com o outro e seus valores só será possível se os professores cristãos, a exemplo dos profetas bíblicos, souberem que são homens inseridos em uma realidade histórica, que teu um impulso vacacional e que tem com principal função colocar suas vidas a disposição de outros. Quando conseguimos fazer isso, crescemos; mas, como disse Furlanette (2003, p.23), “o crescimento só é possível para quem tem coragem de olhar e ver; ouvir e escutar, pensar a respeito do que ouve, escuta e faz”. Verdadeirocrescimento se dá, objetivamente, na ação.
Referências Bibliográficas
A BIBLIA ONLINE < http://www.bibliaonline.com.br/acf > Acesso em outubro de 2012.
ABL. Dicionário Escolar de Língua Portuguesa (DELP). Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 2ª ed., 2008.
FURLANETTO, Ecleide Cunico. Como Nasce um Professor? São Paulo: Paulus, 2003.
LENGERT, Rainer. Profissionalização Docente: entre vocação e formação. Disponível em < http://www.revistas.unilasalle.edu.br/index.php/Educacao/article/view/195/209> Acesso em outubro de 2012.
MCNAIR, S. E. A Bíblia Explicada. Rio de Janeiro: CPAD, 1985
VITO, Francikley. Responsabilidades Básicas do Professorado Cristão. Disponível em <http://www.portalebd.org.br/principal/pedagogia/item/269-responsabilidades-b%C3%A1sicas-do-professorado-crist%C3%A3o> Acesso em maio de 2011.

*Francikley Vito é professor de Teologia e Linguagens. É pós-graduando em Teologia Prática (CPAG/Mackenzie), autor do livro Deus e o Mal e editor do blog www.vosbi.blogspot.com, evangelista da Assembleia de Deus - Ministério do Belém - Setor 11 (São Mateus, São Paulo/SP).
 Fonte: http://www.portalebd.org.br

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