quarta-feira, 25 de março de 2015

Modismos: cultos de reteté e sapatinho de fogo?

Por Silvio Costa
Modismos: cultos de reteté e sapatinho de fogo?
Embora o termo “modismo” tenha imediata associação com o universo estilístico e da moda; a semiótica ligada à expressão vai para além dos desfiles, passarelas, vitrines e desejos dos guarda-roupas femininos. O entendimento e a dinâmica do termo pressupõem que o indivíduo é influenciado por novas e emergentes expressões sociais, culturais e religiosas – que como novas tendências comportamentais e expressionistas alteram o modo de desejar, fazer, falar e ser – num determinado período de tempo (pois modismos são temporais); notabilizando-se pelo uso das mesmas roupas, corte de cabelo, expressões de linguagem, música, ideais coletivos, chavões de grupo, bem estar, consumos e práticas das
mais variadas.
Todo desdobramento e envergadura dos modismos – sejam de cunho religioso ou não – objetivam a adesão do indivíduo as novas práticas e experiências propostas pelo movimento modista. Quando o Neymar (jogador do Barcelona) começou a adotar diferentes cortes de cabelo –acabou lançando um novo “hair style” para seus fãs mundo afora – depreendendo daí um exemplo nítido de modismo. Outro ponto importante é que qualquer modismo precisa da adesão de formadores de opinião para emplacar e no meio religioso não é diferente. Grandes igrejas com seus líderes inovadores, cantores da música gospel e pregadores avivalistas são os mais prováveis candidatos a emplacar uma nova moda entre o povo. Desde “unções do paletó” a “rolezinho gospel”; de suspensórios masculinos (lançados por um ilustre pregador, doutor em divindades e deputado federal) a “unções proféticas”; vira e mexe muitos irmãos estão participando!
No segmento cristão o termo modismo aplica-se a crenças e comportamentos cúlticos, litúrgicos e até místicos ligados a “novas revelações e experiências de fé” sem qualquer suporte das Escrituras. Modismos são mais notados entre pentecostais e neopentecostais e tem sentido objetivo de desvio doutrinário por não poderem se fundamentar na bíblia, possuírem levantes históricos controversos e apresentação teológica inconsistente. Como no mundo secular, entre os pentecostais e neopentecostais os modismos geralmente são apresentados por figurões persuasivos, líderes que partindo do campo da experiência pessoal – estabelecem um novo “padrão de evangelho” com manifestações das mais variadas e estranhas. Enquanto alguns “movimentos” desenvolvem e espalham suas invenções e inovações quase sempre caracterizadas por exageros e tentativas da representação física e palpável do sagrado; os pentecostais clássicos sustentam uma posição restritiva a tais manifestações, exatamente por desejarem preservar os padrões litúrgicos e doutrinários herdados; e esse firmamento se constitui como a maior oposição aos modismos entre esse grupo.
Sei que não serão todos os pentecostais que concordarão comigo quanto à existência de modismos extrapolados em seu meio. Saliento que os relatos históricos dos primórdios pentecostais no Brasil apresentam experiências que estão em perfeita consonância com as mencionados nas Escrituras tais como o batismo com o Espírito Santo, o falar em línguas, dons espirituais e cura divina (At 2.4; 8. 17; 19.6; 1 Co 14.5) e todos nós como continuistas acreditamos, vivenciamos e pregamos tais graças. A questão é que mesmo que “a ala do pentecostalismo clássico” não aprove os exageros das experiências emotivas, confusão litúrgica e homilia extra-bíblica que compõe os “modismos” praticados na atualidade em nossas denominações; temos de admitir que fomos influenciados por ondas e modas “renovacionistas” que nos distanciaram de nossas origens, identidade e comportamento histórico. O motivo óbvio para tal declaração é que fomos dando cada vez mais ênfase às experiências como afirmações doutrinárias através da prática de campanhas, revelações, unções especiais e outras agregações heterodoxas.
Modismos quando tratados á luz da Palavra de Deus são revelados como suposta autoridade espiritual com conotações e desfechos distantes dos ideais do Novo Testamento como, por exemplo, unção do riso, da imitação de animais, de cair no espírito, de obturações de ouro, de perda de peso e etc. Pretensa materialização de poder através de consagração de objetos como chaves, carnês de contribuição, lenços, rosas, água e etc. Engodos de restauração por meio de sessões de descarrego, quebra de maldições, regressão, mapeamento genealógico, anulação negativa do poder do nome que a pessoa recebeu e etc. Disparates de contexto bíblico e cultural por intermédio da importação de símbolos e emblemas do templo e culto dos israelitas (algumas igrejas já têm reproduções da arca da aliança e do menorá em seus púlpitos); por quererem assimilar funções do serviço levítico e sacerdotal do A.T à música e ao ministério pastoral do N.T.
Quem dera se os pontos críticos dos “modismos liturgizados” fossem apenas um descontrolado ápice emocional ou um extravasar sentimental praticado por membros das igrejas que assumem tais costumes. A incoerência maior é que estas tendências estabelecem crenças infundadas através de seu teologismo distorcido. Comprometem e corrompem a relação do crente com Deus desenvolvendo uma condução menos bíblica e mais emotiva da vida cristã. Estabelecem “novos e invertidos valores” da mordomia bíblica que não é a de servir a Deus e ao próximo, mas a si mesmo; elevam a autoridade do “dom de revelação” à própria inspiração das Escrituras, dando ênfase mais a essas “revelações pessoalmente dirigidas” do que aquelas milenarmente comunicadas através da Bíblia para a vida comum da Igreja de Cristo. Modismos do lado aderente geram manias e no outro lado resistente a elas acabam por desenvolver fobias, gerando dissensões e embates entre os irmãos.
Outro modismo litúrgico são os tais “cultos de reteté”O historiador pentecostal Isael de Araújo assim os descreve: “Nos cultos “reteté”, pessoas marcham, pulam, contorcem, caem, riem, berram, ficam rodopiando pra lá e pra cá num verdadeiro reboliço. Geralmente, essa desordenada movimentação se dá enquanto hinos são cantados em ritmos como forró ou axé, com batuques e pandeiros que lembram reuniões do candomblé. Para os crentes do “reteté” só os seus cultos são verdadeiramente pentecostais e têm o mover de Deus. Mas esses cultos ultrapassam os limites da meninice e muitas vezes são pura expressão de carnalidade e falta de temor a Deus. Seus dirigentes são obreiros neófitos que não estimulam o povo a ler mais a Bíblia e ser mais equilibrados”. Gutierres Fernandes Siqueira do blog Teologia Pentecostal refuta os “cultos de reteté” a partir de 1 Co 14:20-40): “Qual o problema do reteté? São vários os problemas com essa modalidade de culto e seria necessário rasgar I Co 14 das Sagradas Escrituras, para aceitar o reteté”.
a) A passagem ensina ordem e decência (v.40), além de mostrar que os dons têm propósitos para edificação da Igreja (v.26). “Faça-se tudo para edificação”.
b) Deus não é de confusão (I Co 14.33). O reteté encarna o caos!
c) O “reteté” infantiliza, contrariando o bom-senso exortado pelas Escrituras (I Co 14. 20)
d) O culto é racional (Rm 12.1), enquanto o “reteté” inspira os mais primitivos instintos emocionais, desprezando por completo o intelecto.
Finalizo observando que modismos não resolveram o problema do protestantismo norte americano e canadense e certamente sua importação para o nosso país menos bem tem feito a igreja evangélica brasileira. O interesse das igrejas pentecostais nesta última hora não deveria ser por “novidades espirituais importadas ou adaptadas”; percebemos uma igreja inchada em seu “ego autoritário” (Ap 3.7) e vazia da autoridade do Espírito; composta por crentes que se acham ungidos para amaldiçoar e declarar coisas que nem medem as conseqüências se fossem realizadas. O verdadeiro culto pentecostal é composto de hinos, exposição das Escrituras, exercício na coletividade dos dons espirituais (I Co 14.26). A liturgia pentecostal não deve ser o extremo oposto da equilibrada liturgia tradicional, pois o que diferencia é o exercício dos dons, com toda moderação e seguindo as diretrizes da Bíblia. É tempo de voltarmos (Ap 2.4-5) à prática do puro e simples Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo!

autor(a)

Silvio Costa

Silvio Costa

Silvio é administrador de empresas por profissão, mora na belíssima cidade de Guarapari no ES; estudou teologia no Seminário SEET e na Faculdade FAIFA. Textos de sua autoria frequentemente são publicados em portais cristãos do país por focarem questões do cotidiano da igreja evangélica brasileira. Acompanhe também seu blog pessoal cristão capixaba e portallitoral gospel

Fonte: http://artigos.gospelprime.com.br/modismos-cultos-de-retete-e-sapatinho-de-fogo/

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